Taís Patez

Fábio Sena. (Foto: arquivo pessoal)

“A nossa função é democratizar o pensamento sobre o que é o fazer cultural na cidade

Pela primeira vez em Vitória da Conquista foi formado o Conselho Municipal de Cultura, escolhido por processo democrático de votação, na última quarta-feira (14). Antes a escolha era feita por meio de indicação da prefeitura, o que foi modificado após a aprovação da Lei do Sistema Municipal de Cultura, neste ano. A edição desta semana traz com exclusividade uma entrevista realizada com um dos membros titulares do Conselho, Fábio Sena, historiador, jornalista e escritor que conta detalhes de como o Conselho atuará na cidade, nesta nova fase.

Cerca de 100 pessoas da sociedade civil participaram da votação, o Conselho contará com 20 membros, sendo 10 titulares e 10 suplentes e terá a presença de quatro representantes da Câmara Municipal dentre eles Coriolano Moraes (PT) e Lúcia Rocha (DEM).

O Conselho é formado por cinco eixos de atuação: Eixo 1:  Artes visuais, design, moda, audiovisual e culturas digitais – Luiza Audaz (Titular) -Rafael Flores (Suplente). Eixo 2: Dança, circo e teatro – Rayza Lélias (Titular) – Jeane Marrie (Suplente). Eixo 3: Música, meios de comunicação, culturas populares, festas e ritos – Ricardo Benedictis (Titular) – Ana Paula Marques (Suplente). Eixo 4: Literatura, bens culturais, educação patrimonial, museus, arquivos, bibliotecas, leitura e livros – Fábio Sena (Titular) – Mirtes Alves (Suplente). Eixo 5: Políticas e gestão culturais e cultura identitária (LGBT, gênero, afro e indígena) – Keu Souza (Titular) – Andrea (Suplente)

Acompanhem a entrevista a seguir e a todos uma boa  leitura!

Fábio como vai funcionar o conselho?

O funcionamento deste Conselho está previsto dentro do sistema municipal de cultura que foi aprovado recentemente, o interessante dele é que a presidência sempre está com a sociedade civil, que é uma forma de fortalecer a perspectiva da sociedade dentro do Conselho, o que não significa dizer que a presidência governista não tenha esse caráter, mas é importante termos um Conselho que funcione com cinco membros titulares da sociedade civil e mais cinco suplentes que são de diferentes áreas de atuação. Ele na verdade, será o orientador da política cultural do município, então espero que o Conselho funcione efetivamente para criar as politicas, para construir com a população, sendo apenas o interlocutor entre a população e o governo, para que as ações do governo tenham relações diretas com o que a população está pensando .

Qual a principal função?

A nossa função é democratizar o pensamento sobre o que é o fazer cultural na cidade, ou seja, é tirar da esfera apenas do governo esse processo de produção de vanguarda do que seja a prática cultural e fazer com que a sociedade possa ter voz, no sentido de oferecer subsídio para as políticas culturais. O Conselho deve ter capacidade de elaborar com as pessoas  políticas para a música, literatura, teatro, o que o teatro de Conquista precisa, o que os atores, o que os produtores do teatro precisam? O Conselho tem que ouvir todas essas pessoas, conhecer as suas demandas, saber qual o tamanho dessa demanda, elaborar um projeto, um pensamento, levar isso pra dentro do Conselho e discutir com o governo, ele funciona muito melhor quando tem o conhecimento real das demandas. A ação do governo resulta de uma percepção da sociedade. O Conselho deve estar sendo formalizado em forma de decreto pelo prefeito municipal possivelmente essa semana. Só depois de formalizado a partir do decreto é que poderemos nos reunir pra pensar um calendário de reuniões.

Como foram escolhidas as pessoas que estavam presentes no dia da eleição?

Foi um processo democrático, inclusive muito harmônico, tinha os cinco eixos temáticos, desses eixos foram criados os espaços de discussão e votação. Os eixos temáticos foram escolhidos em reunião obedecendo a uma política cultural nacional e estadual, a Secretaria de Cultura (Secult) através da Maria de Sá Ribeiro foi quem conduziu esse processo conosco, ao lado de Gilmar Dantas que é da prefeitura municipal, estabeleceu-se esses cinco eixos temáticos que a partir de cada eixo teria um conselheiro titular e um suplente.

Fábio, para além da literatura como pretende atuar no eixo que está responsável?

Nós vamos discutir o melhor método de trazer essa visibilidade, seja por meio de projetos literários, apresentações públicas, vamos pensar um formato que traga o pensamento das pessoas a partir da literatura. A minha participação exclusiva neste eixo é porque eu sinto que temos perdido a capacidade de produção literária por não termos convivência literária. A professora Eleusa Câmara é um bom exemplo, ela construiu um projeto extraordinário de literatura por presidiários, e essas histórias ajudam tanto o preso como a comunidade a compreender a pessoa que há por trás das grades. Eu tenho um grande ressentimento porque acredito que tivemos uma perda de produção cultural enorme, a cidade não dispõe de um Teatro Municipal, tendo tanta gente que produz teatro é inaceitável imaginarmos que hoje temos um centro de cultura, que ainda não é o espaço que desejávamos, mas que já é o espaço que tínhamos estar desde 2013 fechado, ou seja, o Conselho de Cultura vai  ter que intervir de todas as maneiras para que o governo do Estado cumpra a sua função.  Temos de pensar em outros aspectos culturais como o patrimônio imaterial, como os ternos de reis, que atualmente teve um processo de regaste, mas ele não se materializou para além das apresentações nas festas de Natal, o que não é pouco. Então vamos pensar maneiras de preservar essa memória. Vamos funcionar em parceria com a Secretaria de Cultura que não pode ser uma Secretaria que realiza somente festas, ela tem que ser uma Secretaria ‘DE CULTURA’ pensando a cultura enquanto patrimônio material e imaterial.

De onde virão os recursos mantenedores do Conselho?

O Conselho se reúne voluntariamente no calendário que é estabelecido, o que temos em Conquista é um Fundo de Cultura que está na Secretaria de Cultura oriundo do orçamento municipal, a função do Conselho é de orientação, o que não quer dizer que o governo vá acatar a orientação. O Conselho vai formular as políticas, elaborar propostas, nós podemos elaborar o tipo de Natal na Cidade que queremos para 2017, esta é a construção que faremos, mas o orçamento é municipal. A partir do que nós oferecermos de subsidio a Secretaria Municipal de Cultura junto ao Fundo de Cultura é que vai estabelecer quais as condições financeiras e orçamentárias para tocar aquilo que apresentamos.

A estudante de letras Paloma Rocha, que pretende atuar na área acadêmica enviou a seguinte pergunta: Qual a sua opinião em relação à proposta de reforma do ensino médio?

A primeira grande questão da reforma do ensino médio é a falta de transparência do governo no sentido de oferecer tempo para uma transformação radical sem absoluta participação da sociedade, como se fosse mais uma medida econômica. Uma reforma do ensino médio demandaria, na pior das hipóteses, quatro anos de grandes discussões com toda a sociedade, não dá pra sair de um gabinete uma reforma que envolve a questão da prática pedagógica. A forma como foi feito foi de uma truculência política absurda, falta de sensibilidade para o tema, faltou zelo com a população em se tratando de democratizar ao máximo as possibilidades de construção de uma proposta de ensino que seja da sociedade. São os professores, alunos, pais de alunos que precisam dizer quais são suas fragilidades. Do ponto de vista do conteúdo acho que houve equívocos, de como alguns temas que eram essenciais e disciplinas que jamais poderiam ser tidas como facultativas. Por outro lado, tenho uma reflexão sobre isso que é convidar a população para estar em um nível de alerta permanente, pois percebemos que há deficiência no ensino médio, ficamos na dependência de esperar que o governo mande, a sociedade não consegue se auto-organizar.

O Conselho vai apoiar os artistas locais?

O Conselho tem que pensar na sociedade, e os artistas fazem parte dela, temos que pensar que tem um artista que quer se apresentar, mas tem que gerar as condições para quem quer consumir.  Temos o Natal da Cidade que nas últimas edições foi para o Bairro Brasil, esses espaços estão sendo pensados para crianças e idosos? Mulheres grávidas e pessoas com deficiência? Dessa forma, fatalmente quem for artista encontrará as condições para ter uma praça que ofereça condições para que ele se apresente, para que a mulher grávida sente, o idoso vá e também se sente, que a criança vá, brinque e compartilhe daquele ambiente cultural sem ter que estar passando por nenhum tipo de insegurança. Vamos nos debruçar em trazer uma cultura que não seja somente de jovem para jovem, mas que seja gestado para as múltiplas camadas da sociedade.

Centro de Cultura Camilo de Jesus, recado e desabafo aos conquistenses…

Se eu pudesse dar um recado a todas as pessoas que pensam em política e se comprometem com a cidade, eu diria que temos que sair daqui de Conquista e nos instalarmos na Secult e afirmar que só sairíamos de lá quando o Centro de Cultura estivesse reformado. O governo do Estado tem vultosos recursos para investir em cultura, porque nós sabemos que investe majoritariamente na Capital, posso garantir que o interior está sendo tratado com falta de zelo, é como se a nossa demanda social  e cultural fosse menor que a demanda da Capital, e não é. Vejo isso como total desprezo a nossa cidade, é um governo que está com os olhos virados para o litoral e não consegue olhar para o interior.

Finalizando, a Rede José Pinheiro Soares de Comunicação agradece a disponibilidade do senhor Fábio Sena e deseja uma boa sorte a todo o Conselho Municipal de Cultura durante seu período de atuação!